As Três Fases do Reino de Cuxe

This entry is parte 1 de 3 in the series Cuxe: Estado, Civilização e Dinastias da Núbia
O Reino de Cuxe (Kush), o mais importante Estado da África Antiga depois do Egito, estendeu-se pela região da Núbia, desde a primeira à quarta catarata do Nilo. As fases de Querma, Napata e Meroe distinguiram-se por mudanças significativas em seus centros de poder, inovações tecnológicas e busca por uma identidade cultural distinta do Egito.
A seguir, os fatores geográficos, políticos e culturais que diferenciaram cada fase:
  • Querma (Gestação do Reino Cuxita): A civilização cuxita foi gestada em Querma.
Fator
Descrição e Contextualização
Geográfico
Querma era a sede de um reino núbio numa parte do território entre a segunda e a quarta catarata que não havia sido conquistada pela XII dinastia egípcia. O local era rico em recursos naturais, como ouro e marfim. A civilização floresceu no ambiente núbio do bíblico “País de Cuxe”.
Político
Durante o Segundo Período Intermediário, Cuxe desenvolveu-se, ameaçando o Alto Egito, e a corte núbia de Querma chegou a se aliar aos hicsos contra Tebas. Querma expandiu-se, absorvendo outros reinos núbios, a ponto de constituir um império a partir da bacia do médio Nilo. Foi um contraponto ao poder faraônico até sua destruição pelas tropas de Tutmés I.
Cultural
A civilização cuxita foi gestada aqui. Embora não detalhada extensivamente, sabe-se que possuía riqueza devido ao ouro e marfim. Os príncipes de Querma eram ancestrais do soberano Cachta de Napata.
  • Napata (Era da Teocracia Amoniana e Domínio Egípcio)

      Napata tornou-se o centro do poder após a destruição de Querma e a recuperação da independência cuxita.

Fator
Descrição e Contextualização
Geográfico
A capital do reino foi transferida de Querma para Napata após a conquista de Piye. Localizava-se na região de Toquens, ao norte do reino, juntamente com cidades como Dongola, Pnubs e Atabará. Napata estava sujeita a uma ameaça crescente: a dessecação contínua do Saara fazia com que as pastagens ao seu redor se tornassem cada vez menos adequadas para a alimentação dos rebanhos. Foi alvo de um ataque devastador das tropas de Psamético II em 593 a.C., o que motivou a transferência da capital para Meroe.
Político
Napata tornou-se o centro de poder quando sacerdotes de Amon, expulsos de Tebas, se refugiaram ali (entre 1078 e 945 a.C.). No século VIII a.C., emergiu em Napata uma dinastia cuxita que governaria o Egito como a XXV dinastia (Dinastia Etíope, para os gregos). O reino de Cuxe na época de Napata era uma “teocracia amoniana”, onde os soberanos eram preparados pelo clero do deus Amon no templo de Djebel Barcal. A conquista do Egito foi encarada como uma missão sagrada atribuída a uma decisão de Amon. Os reis de Napata (como Aspelta) continuaram a usar o título de faraó e a intitular-se “rei do Alto e do Baixo Egito”.
Cultural
Napata era o centro religioso do reino. A civilização cuxita se estruturou efetivamente nesta época. A influência egípcia era muito forte, com o clero amoniano ocupando o primeiro lugar no Estado. Soberanos ostentavam nomes formados a partir do nome de Amon (como Amenhotep). O clero amoniano admitia mulheres, o que criou as condições para o surgimento das soberanas conhecidas como candaces.
  • Meroe (Era Meroítica e Afirmação da Identidade Nacional)
       Meroe tornou-se a sede do poder cuxita quando Aspelta se refugiou ali após a destruição de Napata em 593 a.C.. Esta fase é               chamada de “civilização meroítica”.
Fator
Descrição e Contextualização
Geográfico
Meroe estava localizada mais para o sul, no interior do atual Sudão, próxima à sexta catarata do Nilo. Geograficamente, era menos vulnerável a ataques egípcios (como o de Psamético II) do que Napata. Sua superioridade em relação a Napata também se deu por ter um solo mineral muito mais rico e, provavelmente, mais árvores e carvão, essenciais para a metalurgia. A capital tornou-se um importante centro comercial com portos no Mar Vermelho, que facilitavam o comércio com a Arábia, a Índia e, possivelmente, a China.
Político
Meroe tornou-se a sede do poderoso império cuxita, dominando toda a Núbia. Sob o reinado de Arquamani (Ergamene), houve uma significativa mudança política e religiosa: ele marchou contra Napata e matou os sacerdotes de Amon para acabar com a autoridade da casta sacerdotal, que tinha o poder de ordenar a morte do rei. Manteve relações diplomáticas cordiais com o Egito ptolomaico e enviou embaixadores a Roma. O poder era forte, com o uso do elefante como demonstração de força bélica. O declínio começou por volta de 200 a.C., quando nômades (blemios e nobatas) obstruíram rotas comerciais e tomaram o poder por volta de 300 d.C., culminando na invasão pelo rei Ezana de Axum em 330 d.C.
Cultural
O crescente progresso de Meroe deveu-se à introdução da metalurgia do ferro, sendo um destacado centro utilizador e difusor dessa tecnologia. O advento da indústria do ferro e a mudança de capital foram motivados pelo anseio de resgatar os fundamentos da identidade nacional. A partir de 315-295 a.C., houve uma acentuação da ruptura com o modelo egípcio, afirmando traços culturais locais efetivamente núbio-sudaneses. Foi desenvolvida uma própria escrita alfabética e hieróglifos meroíticos. Os deuses de Meroe, e suas próprias formas de culto, substituíram os deuses egípcios. Um deus leão, frequentemente mostrado com três faces e quatro braços, suplantou o carneiro egípcio. O elefante africano foi elevado a uma posição de grande importância. Novos estilos originais surgiram na arquitetura e na cerâmica. As soberanas conhecidas como candaces surgiram durante esta época.
Em essência, a transição de Querma para Napata marcou o apogeu da influência egípcia (política e cultural, através do culto a Amon e do domínio sobre o Egito), enquanto a mudança para Meroe representou a autonomia e a busca por uma identidade própria (desenvolvimento da escrita meroítica e culto aos deuses locais), ancorada na inovação tecnológica do ferro e em uma localização geograficamente mais estratégica.
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Sobre LuccyOrtyz 6 Artigos
Este espaço nasce do desejo de reencantar o mundo por meio do pensamento e da palavra. Inspirado em perspectivas decoloniais e filosofias africanas, o blog propõe uma reflexão sobre linguagem, humanidade e reconstrução simbólica — um convite a recriar caminhos mais afetivos, plurais e coletivos, onde o saber se faz encontro e escuta.

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