A Ascensão e Queda do Reino de Cuxe

This entry is parte 2 de 3 in the series Cuxe: Estado, Civilização e Dinastias da Núbia

1.0 Introdução: Definição e Contexto Geográfico do Reino de Cuxe

O Reino de Cuxe representa, depois do Egito, o mais importante e duradouro Estado da África Antiga. Sua civilização floresceu na região historicamente conhecida como Núbia, localizada estrategicamente ao sul de Assuã, ao longo do curso médio do rio Nilo. Em seu apogeu, o território cuxita estendeu-se para além das margens do Nilo, abrangendo áreas do atual Sudão, porções do litoral do Mar Vermelho e partes dos modernos territórios da Eritreia, Etiópia e Quênia. Originalmente, a denominação aplicava-se ao trecho entre a primeira e a quarta catarata do Nilo, mas a partir do Médio Império egípcio, o termo “Cuxe” passou a designar toda a Alta Núbia.

A nomenclatura da região varia conforme a perspectiva cultural e histórica. O nome Cuxe (ou Kush) parece ser de origem primordialmente hebraica, figurando de forma proeminente nos textos bíblicos, onde Cuxe é apresentado como neto do patriarca Noé e descrito como “o pai do povo negro”. Essa designação era por vezes estendida a outros povos de pele escura, como os midianitas e os cassitas. Em contraste, os egípcios referiam-se à mesma terra como Ta-Seti, que significa “o país do arco”, uma alusão à renomada habilidade de seus arqueiros. Já os gregos antigos utilizavam o termo Etiópia para designar de forma geral todo o nordeste africano, razão pela qual a XXV dinastia egípcia, de origem cuxita, é frequentemente chamada de “dinastia etíope”. Cada nome, portanto, carrega uma conotação distinta, refletindo as interações e percepções de diferentes povos sobre esta poderosa civilização africana.

Esta complexa e rica história teve seu alicerce estabelecido na primeira grande fase da civilização núbia, a cultura de Querma.

2.0 A Fase de Querma: Poder, Riqueza e Conflito com o Egito

A fase de Querma representa o alicerce sobre o qual a civilização cuxita foi edificada. Situado na Alta Núbia, este reino emergiu como um significativo contraponto ao poder faraônico, controlando um território rico em recursos naturais, notadamente ouro e marfim, que alimentavam sua economia e suas ambições expansionistas. Durante a XII dinastia egípcia, o poder faraônico fortificou a Baixa Núbia até Senna, estabelecendo uma fronteira clara, mas o reino de Querma, ao sul, permaneceu independente e influente.

A dinâmica de poder entre Querma e o Egito tornou-se particularmente intensa durante o Segundo Período Intermediário egípcio (c. 1650–1550 a.C.). Aproveitando-se da fragmentação política no Egito, que estava parcialmente sob o domínio dos hicsos no norte, Cuxe expandiu seu território, absorveu outros reinos núbios e chegou a ameaçar o Alto Egito. Em um movimento estratégico notável, a corte de Querma formou uma aliança com os hicsos contra o poder egípcio nativo sediado em Tebas. A sofisticação administrativa deste império regional era tal que muitos escribas egípcios serviam ao Estado cuxita neste período.

A reunificação do Egito e o advento do Novo Império, contudo, marcaram o início de uma vigorosa retaliação. Faraós como Tutmés I lideraram campanhas militares que culminaram na destruição de Querma e na submissão das chefias núbias. Sob o reinado de Tutmés III, o império egípcio atingiu seu auge, e a Alta Núbia, da terceira à quarta catarata, foi forçada a render tributo. Apesar da dominação, a aspiração pela independência permaneceu latente entre os remanescentes de Querma.

O declínio gradual do poder egípcio durante o Terceiro Período Intermediário (c. 1070–664 a.C.) finalmente criou o vácuo de poder necessário para o ressurgimento da autonomia cuxita. Demonstrando sua força recuperada, uma expedição cuxita chegou a saquear Jerusalém neste período, permitindo a ascensão de um novo centro político e religioso que mudaria para sempre a história da região.

 

3.0 A Ascensão de Napata e a XXV Dinastia: Os Faraós Cuxitas

A ascensão de Napata como o novo centro político e religioso de Cuxe marcou uma virada decisiva na história do reino. Este processo foi impulsionado pela chegada de sacerdotes do deus Amon, expulsos de Tebas durante o reinado do faraó Xexonq I. Eles encontraram refúgio em Napata, transformando a cidade no epicentro de seu poder e estabelecendo as bases para a emergência de uma nova e ambiciosa dinastia cuxita.

A conquista do Egito pela XXV dinastia, um dos feitos mais notáveis da história cuxita, desenrolou-se ao longo de várias décadas, impulsionada por uma fervorosa devoção ao deus Amon.

  1. O Início da Dinastia: O primeiro monarca conhecido, o rei Alara, consolidou seu poder e dedicou-se ao culto de Amon. Durante seu governo de mais de duas décadas, ele elevou Napata à condição de principal centro religioso de Cuxe, aproveitando a decadência do poder faraônico no Egito, que se encontrava dividido entre dinastias rivais.
  2. A Conquista de Cachta: Sucessor de Alara, Cachta foi orientado pelos sacerdotes de Amon a reivindicar a coroa do Egito. Ele iniciou a campanha militar em direção ao norte, chegando a Tebas e dando início formal à XXV dinastia.
  3. A Consolidação de Piye: O sobrinho de Cachta, Piye, deu continuidade à missão. Ele enfrentou e derrotou os governantes do Baixo Egito, incluindo Osorcon IV e Tefnact, em uma vitória decisiva em Heracleópolis. Com a tomada de Mênfis e Crocodilópolis, Piye unificou o Egito sob o domínio cuxita. Ele imortalizou suas conquistas em uma grande estela erigida no templo de Djebel Barcal. Contudo, após o retorno de Piye a Napata, Tefnact se rebelou, sendo sucedido por seu filho Bocoris, que, em uma demonstração brutal do poder cuxita, foi vencido, torturado e queimado vivo pelas tropas de Piye.
  4. Sucessores e Conflitos: Após Piye, reinaram Xabaca, Xabataca e Taharca. Durante seus governos, o poder cuxita no Egito foi consolidado, mas também marcou o início de um conflito inevitável com o crescente poder do Império Assírio. Foi no reinado de Xabataca que os assírios tomaram Jerusalém, sinalizando a iminente colisão de impérios.

Para legitimar e consolidar seu domínio, os cuxitas utilizaram de forma estratégica o prestigioso título religioso de “esposa do deus Amon em Tebas”. A princesa Amenirdis, filha de Cachta, e posteriormente Xepenupet, filha de Piye, ocuparam essa posição, gozando do status de rainhas e deusas vivas, o que lhes conferia imensa autoridade religiosa e política no coração do Egito.

Apesar de seu sucesso em unificar o Vale do Nilo, a crescente pressão externa exercida pelos assírios forçaria uma mudança fundamental na trajetória do reino, encerrando o período dos faraós negros.

 

4.0 A Era de Napata Pós-Egito: Autonomia e Confronto Final

A expulsão do Egito pelas forças assírias marcou o início de uma nova era para o Reino de Cuxe. Forçado a recuar para seu território original, o reino teve que se reorganizar e desenvolver de forma autônoma, com Napata como sua capital. Este período foi definido por uma contínua afirmação de sua identidade e uma rivalidade duradoura com a nova dinastia egípcia.

Após a morte de Taharca, seu sucessor, Tanutamon, foi coroado tanto em Napata quanto em Tebas, em uma última tentativa de reafirmar o controle cuxita. No entanto, ele foi definitivamente derrotado pelos assírios e forçado a recuar para Napata. O reino foi então organizado em duas regiões principais: ao norte, o país de Toquens, que incluía cidades importantes como Napata e Dongola, e ao sul, o país de Aloa, que se estendia para além de Cartum.

A rivalidade entre a dinastia cuxita em Napata e a nova dinastia saíta, estabelecida no Egito com o apoio dos assírios, perdurou por décadas. Ambas as linhagens disputavam o título de faraó legítimo do Egito: os saítas eram vistos pelos cuxitas como usurpadores, enquanto os cuxitas eram considerados estrangeiros pelos egípcios.

Durante o reinado de Aspelta, que sucedeu seu irmão Anlamani, a tensão entre o poder real e o clero de Amon manifestou-se de forma dramática. Em um ato de desafio à autoridade sacerdotal, Aspelta condenou à morte os clérigos que, por meio de um oráculo manipulado, haviam ordenado seu próprio sacrifício. Recusando-se a aceitar a “ordem divina”, o rei inverteu a situação e executou os conspiradores. Mantendo a pretensão de reconquistar o norte, ele continuou a usar o título de “rei do Alto e do Baixo Egito”. Seus planos, contudo, parecem ter sido descobertos, provocando uma retaliação devastadora. Em 593 a.C., o faraó Psamético II enviou um exército que atacou Napata, derrotando as tropas cuxitas, saqueando a capital e incendiando templos e o palácio real.

A destruição de Napata foi o catalisador para uma das mudanças mais significativas na história cuxita: a transferência da capital para a cidade de Meroe, mais ao sul, inaugurando a fase mais brilhante e original da civilização de Cuxe.

 

5.0 A Civilização Meroítica: Inovação e Afirmação de Identidade

A transferência da capital para Meroe inaugurou a era Meroítica, um período de notável florescimento cultural, econômico e tecnológico. Esta não foi apenas uma realocação, mas um deliberado realinhamento geopolítico e ideológico. Longe da fronteira egípcia, Meroe tornou-se o centro de uma civilização que promoveu uma ruptura progressiva com o modelo egípcio e afirmou uma identidade distintamente núbio-sudanesa.

A superioridade estratégica de Meroe sobre Napata foi impulsionada por múltiplos fatores, que garantiram seu desenvolvimento e longevidade:

  • Vulnerabilidade Militar: Localizada mais ao sul, Meroe era significativamente menos vulnerável a ataques externos provenientes do Egito, como o que havia devastado Napata.
  • Fatores Ambientais: A contínua dessecação do Saara tornava as pastagens ao redor de Napata cada vez mais áridas, enquanto a região de Meroe oferecia melhores condições para a pecuária.
  • Revolução Tecnológica: A introdução e o domínio da metalurgia do ferro foram decisivos. Meroe possuía ricos depósitos de minério de ferro e madeira para a produção de carvão. Essa tecnologia, aprendida a partir do confronto com os assírios, transformou Meroe em um dos principais centros de produção e difusão do ferro na África.

Durante o período meroítico, acentuou-se um processo de afirmação da identidade nacional, refletido em diversas inovações culturais:

  • Escrita: Os cuxitas desenvolveram um sistema de escrita próprio, primeiro com os hieróglifos meroíticos e, posteriormente, com um alfabeto e uma escrita cursiva únicos. Esta escrita permanece como um testamento de sua trajetória cultural distinta, em grande parte indecifrada até hoje.
  • Religião: Divindades locais, como o deus-leão de três faces Apedemak, ganharam proeminência em detrimento dos deuses egípcios. O elefante também foi elevado a um símbolo de poder real e força bélica.
  • Cultura Material: A arquitetura e a cerâmica desenvolveram estilos originais e distintos, afastando-se dos cânones egípcios e expressando uma estética própria.

A partir de Meroe, os cuxitas estabeleceram vastas redes comerciais e diplomáticas. Mantiveram relações cordiais com o Egito ptolomaico e, mais tarde, com o Império Romano, chegando a enviar embaixadores a Roma e a receber dois centuriões enviados por Nero. Seus portos no Mar Vermelho facilitaram o comércio com a Arábia, a Índia e, possivelmente, até a China, enquanto sua influência se expandia para o sul e oeste da África.

Este período de florescimento foi sustentado por uma estrutura de poder única, uma teocracia que evoluiu significativamente ao longo do tempo.

 

6.0 Estrutura de Poder: A Teocracia Amoniana e sua Transformação

Na era de Napata, o Reino de Cuxe funcionava como uma “teocracia amoniana”, uma estrutura na qual o clero do deus Amon exercia uma influência avassaladora sobre os soberanos. A própria conquista do Egito pela XXV dinastia foi legitimada como uma “missão sagrada” ordenada por Amon para depor os governantes líbios.

O poder do clero era tão profundo que, segundo o historiador grego Diodoro da Sicília, os sacerdotes podiam ordenar a morte do rei com base em um oráculo divino, uma prática que submetia a vida do monarca à vontade da casta sacerdotal.

Um ponto de virada crucial, que culminou uma tensão recorrente entre a coroa e o templo, ocorreu durante o reinado de Arquamani (conhecido pelos gregos como Ergamene). Influenciado pela cultura helenística, este soberano recebeu a tradicional ordem de morte. Em um ato de desafio sem precedentes, e ecoando a resistência anterior de Aspelta, Arquamani recusou-se a obedecer. Auxiliado por mercenários gregos, ele marchou com suas tropas sobre Napata, invadiu o templo de Amon, executou todos os sacerdotes e instituiu um novo culto, quebrando de forma definitiva o poder da teocracia amoniana.

Ainda assim, a religião continuou a desempenhar um papel central na estrutura de poder, especialmente no que tange ao papel das mulheres. A importância de figuras femininas na hierarquia religiosa, como as “Divinas Adoradoras de Tebas”, criou um precedente para a ascensão de poderosas soberanas. Essa tradição culminaria no surgimento das célebres rainhas-mães guerreiras conhecidas como “candaces”, que governaram Meroe com autoridade absoluta.

Apesar de suas inovações políticas e culturais, a civilização meroítica não estava imune às pressões externas, que eventualmente levariam ao seu colapso.

 

7.0 Declínio, Queda e Legado

O declínio da civilização meroítica foi um processo gradual, iniciado por volta de 200 a.C., e culminou em seu colapso definitivo séculos depois, devido a uma confluência de fatores externos que minaram sua estabilidade econômica e política.

A relação inicial com Roma, que conquistou o Egito em 30 a.C., foi formalizada por um tratado que estabeleceu a Baixa Núbia como um protetorado romano. No entanto, o acordo foi logo rompido pelos cuxitas, que tentaram reaver o controle de cidades próximas à segunda catarata, gerando um período de instabilidade na fronteira.

As causas centrais que levaram à queda do Reino de Cuxe podem ser resumidas da seguinte forma:

  1. Obstrução das Rotas Comerciais: A prosperidade de Meroe dependia vitalmente de suas rotas comerciais para o norte e leste. Essas rotas começaram a ser sistematicamente obstruídas e atacadas por grupos nômades rivais, como os blemios e os nobatas.
  2. Infiltração e Tomada do Poder: Ao longo do tempo, esses grupos nômades não apenas atacaram as caravanas, mas também se infiltraram nos povoados cuxitas. Por volta de 300 d.C., eles já haviam adquirido poder suficiente para tomar o controle do que restava do reino.
  3. O Golpe Final de Axum: A pá de cal sobre o poder na região foi dada pelo emergente Reino de Axum. O casus belli surgiu quando os nobas tentaram aliciar os embaixadores de Ezana de Axum para que traíssem seu rei. Como retaliação, por volta de 330 d.C., Ezana liderou uma invasão devastadora. Sua campanha militar, registrada em uma inscrição que deixou em sua capital, arrasou os assentamentos controlados pelos nobas, pondo fim a qualquer vestígio de um poder centralizado em Meroe.

Apesar da destruição de seu Estado, o legado da civilização meroítica não desapareceu por completo. Parte de sua rica cultura foi absorvida pelos nobas, que, ao se sedentarizarem, adotaram costumes, técnicas e formas de organização meroíticas. Essa fusão cultural foi fundamental para dar origem, séculos mais tarde, às prósperas civilizações da Núbia Cristã, garantindo que a herança do antigo Reino de Cuxe perdurasse na história do Vale do Nilo.

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